SÉTIMA CARTA CIRCULAR
DO SECRETÁRIO DO SECRETARIADO O. CIST. DE LITURGIA AOS MOSTEIROS DA ORDEM
PARA A FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR EM 2 DE FEVEREIRO DE 2008
 

PAX

“ADORNA, SIÃO, O TEU LEITO NUPCIAL,
ACOLHE O REI QUE VEM A TI:
ELE É O CRISTO SENHOR!”

Caras Irmãs!
Caros Irmãos!

Como indica a citação litúrgica acima referida, escrevo-lhes esta Carta Circular no dia 2 de fevereiro, por ocasião da bela festa da Apresentação do Senhor. É uma daquelas grandes festas da Igreja que tiveram origem muito cedo no Oriente cristão e contém em si uma grande riqueza teológica e espiritual. Como sabemos, ela é celebrada quarenta dias depois do Natal. Desde a última reforma da Liturgia da Igreja, não é mais oficialmente a conclusão do Tempo do Natal – que agora é na festa do Batismo do Senhor – mas conserva uma significativa relação com o Natal. Por isso, em alguns manuais litúrgicos, ela continua sendo considerada como a última festa do ciclo da Epifania ou do Tempo do Natal. A fim de compreender em profundidade o conteúdo e o sentido da festa de 2 de fevereiro, é necessário saber algo a respeito de sua origem e desenvolvimento histórico, pelo menos em linhas gerais.

1. SOBRE A ORIGEM E A HISTÓRIA DA FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR 

1.1  – A Festa do Encontro de Jesus com o velho Simeão (e a Profetisa Ana)

O testemunho mais antigo e mais seguro sobre a festa da Apresentação do Senhor encontra-se no Diário de Viagem da célebre monja EGÉRIA, escrito por ocasião de sua peregrinação à Terra Santa, nos anos 381-384. Nesse Diário, ela conta que, em Jerusalém, «no quadragésimo dia depois da Epifania» (em Jerusalém era a celebração do nascimento de Cristo), portanto, no dia 14 de fevereiro, havia uma solene celebração presidida pelo Bispo, antecedida por uma procissão até a Igreja da Ressurreição (Anástasis), em memória da Apresentação do Senhor no Templo. Convém notar a constatação da monja que, nesse dia, os «santos Mistérios» eram celebrados com «a mesma alegria como na Páscoa». Desde o início, os acontecimentos narrados em Lc 2, 22-39 (evangelho do dia) estavam no centro dos acontecimentos. De Jerusalém, entre fins do século V e início do século VI, a festa se espalhou por todo o Oriente. Em Constantinopla, Bizâncio, a festa foi introduzida pelo Imperador JUSTINIANO I († 565), provavelmente entre os anos 534 e 542. É certo que a data de 2 de fevereiro foi fixada por ele, no quadragésimo dia depois do Natal. Somente em meados do século V é que se fala de uma Procissão das velas. Por exemplo, SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA († 444) exorta os fiéis em uma pregação: Festejamos o mistério deste grande dia de forma radiante com nossas luzes brilhantes. Igualmente, diz um Sermão da mesma época, pronunciado em Jerusalém: Sejamos radiantes, e brilhem nossas lâmpadas. Como filhos da luz, ofereçamos os círios da verdadeira luz, que é Cristo. No Oriente, no mais tardar no século VI, a festa de 2 de fevereiro recebeu o belo nome de “Hypapante”, isto é, “Encontro”, lembrando o encontro de Jesus com o velho e justo Simeão e a profetisa Ana.

            Em Roma, a festa foi introduzida na Liturgia da Igreja, também com o nome de “Hypapante”, no pontificado do Papa SÉRGIO I († 701), de origem siro-italiana, que incluiu na liturgia romana as principais festas marianas. Igualmente em Roma, no dia 2 de fevereiro, estava, em primeiro plano, a procissão matinal da Igreja de Adriano para a Basílica de Santa Maria Maior. A referida procissão tinha, em Roma, um caráter penitencial, usando-se, por isso, paramentos pretos e, posteriormente (até 1960!), roxos. Explica-se isso pelo fato de ter havido na antiga Roma o costume de uma procissão pagã de purificação (procissão lustral, em latim: amburbale = procissão ao redor da Urbe), que se realizava no começo de fevereiro.   

1.2. – A Festa da Purificação de Maria (Purificatio B.M.V.) 

De Roma, a festa passou para as regiões da Gália e da Francônia, nos séculos VIII e IX, onde a primitiva festa de Cristo foi se transformando cada vez mais acentuadamente em festa marial, a “Festa da Purificação de Maria”. Este aspecto tem também sua fundamentação no evangelho do dia, expresso em Lc 2, 22.24. O evangelista faz referência à disposição vétero-testamentária segundo a qual uma mulher devia se purificar quarenta dias depois do nascimento do filho, tempo no qual era considerada “impura” para o culto, entregando ao sacerdote um cordeiro de um ano para holocausto e um pombinho ou uma rola em sacrifício pelo pecado.

Pessoas pobres, como Maria e José, podiam oferecer em lugar do cordeiro duas rolas ou dois pombinhos (cf. Lv 12, 2-4.6-8). A data da festa, 2 de fevereiro, exatamente quarenta dias depois do Natal, explica-se, portanto, pelo costume judaico. Segundo Lc 2, 23, os pais de Jesus, indo ao Templo de Jerusalém, cumpriram ainda uma outra lei judaica, a saber: cada primogênito masculino devia ser consagrado ao Senhor e, por essa razão, “resgatado” (cf. Ex 13, 1-2.13-16). Até a última reforma litúrgica, o dia 2 de fevereiro era considerado, na liturgia romana, com base nesse fundamento bíblico-judaico, como uma festa de Maria, sobretudo, na Liturgia das Horas, e se chamou até 1970 (1960): “Festa da Purificação de Maria”.     

1.3 – A Festa de Nossa Senhora da Luz (das Candeias, da Candelária)

Desde o século V temos notícia de uma procissão das velas, em 2 de fevereiro. No decorrer do tempo, as velas e sua bênção foram adquirindo uma importância cada vez maior. Nos livros litúrgicos franco-romanos dos séculos IX e X fala-se da distribuição e da bênção das velas. A bênção das velas tornou-se costume somente a partir do século X – em Roma, a partir do século XII. O povo atribuía sempre mais a essas velas bentas forças eficazes (apotropaicas) contra o demônio e esperava delas auxílio em todos os pedidos e aflições (por exemplo, em trovoadas, epidemias, na hora da morte). Por causa da bênção das velas para uso litúrgico e em particular devido à celebração da luz, a festa do dia 2 de fevereiro recebeu nos países germânicos, desde o século X, o nome de “Mariä Lichtmess”, nome adotado a seguir igualmente em outras línguas (Candeias, Candelária). Também o tema da luz tem seu fundamento no evangelho da festa, quando o velho Simeão aclama o Menino Jesus, que ele carrega em seus braços, como “Luz que brilhará para os gentios e para a glória de Israel, o vosso povo” (Lc 2, 32). Este texto tornou-se naturalmente um canto para a procissão do dia 2 de fevereiro: “Lumen ad revelationem gentium...”.

Portanto, os títulos que encontramos na história da festa revelam algo sobre o conteúdo e o sentido da celebração de 2 de fevereiro: festa da Apresentação de Jesus no Templo, festa do Encontro de Jesus com o velho Simeão e a profetisa Ana, festa da Purificação de Maria, festa de Nossa Senhora da Luz. Na Liturgia siro-ocidental, era também chamada festa da Entrada do Senhor no Templo (cf. a leitura de Ml 3, 1-4) e festa de São Simeão (“Dies” ou “Natale Sancti Simeonis”).

1.4 – Festa da Apresentação do Senhor

         Retornando às origens históricas e aos fundamentos bíblicos, a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II (1962-1965) fez da festa de Maria outra vez uma festa do Senhor. Desde a publicação do Missal Romano de 1970, a festa de 2 de fevereiro chama-se oficialmente “Apresentação do Senhor” (“In Præsentatione Domini”) e é de novo, como na antiguidade, uma festa do Senhor, uma festa de Cristo, embora com uma forte componente mariana. Esta “nova” característica se exprime claramente nos textos litúrgicos renovados da Bênção das Velas, da Procissão, da Missa e da Liturgia das Horas.    

2. A CELEBRAÇÃO DA FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR

         Também a tradicional liturgia de nossa Ordem, de 2 de fevereiro, era unilateralmente marcada pelo contexto mariano. Por isso, de maneira correta, a maior parte de nossos Mosteiros adotou ou, pelo menos, adaptou  os textos e os ritos revistos pela reforma litúrgica da Igreja. O Diretório Litúrgico de nossa Ordem dá algumas orientações sobre a maneira de celebrar a festa em conformidade com a mente da Igreja. A seguir, explicaremos um pouco mais as indicações sucintas do Diretório.

2.1 – Os textos da Liturgia das Horas 

Desde a reforma litúrgica, a Liturgia das Horas romana tem hinos próprios para 2 de fevereiro, e não mais os clássicos hinos de Nossa Senhora. São eles: a) o hino das Vésperas: “Quod chorus vatum venerandus olim” (atribuído a Rabano Mauro [† 856]); b) o hino das Vigílias (ou Ofício das Leituras): “Legis sacratæ sanctis cæremoniis” (atribuído a Paulino II de Aquiléia [† 802]); c) o hino das Laudes: “Adorna, Sion, thalamum” (Pedro Abelardo [† 1142]). Quem estiver interessado no texto e nas melodias desses “novos” hinos latinos, bem como em outros textos latinos da Liturgia das Horas, pode encontrá-los, por exemplo, no “Breviário de Heiligenkreuz” e, respectivamente, no Hinário de Heiligenkreuz. A Liturgia romana tem, especialmente para as Vésperas e para as Vigílias (Ofício das Leituras), não mais as antigas antífonas da liturgia de Nossa Senhora, mas antífonas próprias que correspondem melhor à festa da Apresentação do Senhor. O mesmo vale para as leituras das diversas Horas. Aliás, é interessante saber que vários cantos do dia 2 de fevereiro, também na antiga Liturgia de nossa Ordem, provêm da Liturgia bizantina. Supõe-se que tenham sido traduzidos para o latim pelo Papa SÉRGIO I († 701), como, por exemplo: “Responsum accepit”, “Obtulerunt pro eo” e, sobretudo, o belíssimo “Adorna thalamum”.

2.2 – As duas formas da Bênção e Procissão das velas

         A reforma litúrgica também modificou bastante a primeira parte da Liturgia da Missa de 2 de fevereiro, a saber, a Bênção e Procissão das velas. Como no Domingo de Ramos (cf. Carta Circular 3, para o Tempo da Quaresma e Páscoa de 2004), o Missal Romano apresenta duas formas possíveis de celebração:

Primeira forma: Procissão. O mais antigo princípio de uma verdadeira procissão é que ela começa em um lugar diferente daquele onde se celebra a Sagrada Eucaristia. Por isso, esta primeira forma é a mais ideal. O Missal diz o seguinte: “Na hora conveniente, os fiéis se reúnem numa igreja menor ou em outro lugar adequado, fora da igreja para a qual se dirige a procissão. Trazem nas mãos velas apagadas”. Em nossos mosteiros, por exemplo, esse local de reunião poderia ser a Sala do Capítulo, como já acontece em vários lugares. Depois da saudação do Abade (ou do Sacerdote), revestido de casula ou pluvial branco, acendem-se as velas (isso é uma novidade!) enquanto se canta a antífona: “Eis que virá o Senhor onipotente” (“Ecce Dominus noster”) ou um outro canto apropriado. Em alguns lugares, costuma-se acender as velas diretamente no Círio pascal. Após a introdução sobre o sentido litúrgico da festa, o Abade (ou o Sacerdote) abençoa as velas (já acesas!) dos participantes da celebração, bem como as demais velas que servirão para o uso litúrgico durante o ano. Ao invés das cinco antigas orações de bênção, o Missal apresenta apenas duas orações, à escolha. Nosso “Rituale Cisterciense” de 1998 apresenta ainda uma terceira oração (de nossa Liturgia própria). Essas novas orações não têm mais o caráter penitencial e de exorcismo das antigas, mas se referem ao mistério da festa da Apresentação de Jesus no Templo e ao sentido da celebração da luz. 

         Nossos antigos cantos da procissão deveriam igualmente ser adaptados à Liturgia romana. O “Missale Romanum” de 2002 menciona ainda a Antífona “Adorna thalamum”, que se encontra também em nosso “Processionale Cisterciense”. Ao entrar a procissão na igreja, canta-se o antífona da entrada (“Suscepimus”) ou um outro canto apropriado. A celebração eucarística começa logo com o “Gloria”. O ato penitencial e o “Kyrie” (que, na realidade, não tem nenhum caráter penitencial e, portanto, poderia ser cantado!) são omitidos. 

Segunda forma: Entrada solene

O Missal descreve esta forma de celebração do seguinte modo: “Os fiéis reúnem-se na igreja com as velas nas mãos. O sacerdote, de paramentos brancos, com os ministros e uma delegação de fiéis, dirige-se a um lugar apropriado, quer diante da porta da igreja, quer no interior, onde pelo menos grande parte do povo possa participar do rito com facilidade. Quando o sacerdote chegar ao lugar designado, acendem-se as velas ao canto da antífona: “Eis que virá o Senhor” (“Ecce Dominus noster”) ou de outro canto apropriado. O sacerdote, depois da saudação e exortação, benze as velas... Enquanto caminha para o altar, canta-se a antífona da entrada.” A celebração eucarística começa então com o Gloria”.

2.3 – A escuta do Evangelho com as velas acesas e a entrega dos mesmos no Ofertório

         Pelo menos desde a publicação do “Rituale Cisterciense” de 1698, é costume em nossa Ordem segurar as velas acesas nas mãos durante a proclamação do Evangelho. Conforme outro belo costume, cheio de sentido e atestado já no século XII, as velas são entregues ao Abade (ou ao Sacerdote) no momento do Ofertório. É o que lemos nos “Ecclesiastica Officia”, os usos cistercienses do século XII, no capítulo 47: O Abade (que antes entregou sua vela ao sacristão) dirige-se... aos degraus do altar e os demais (a Comunidade e os fiéis) ofertam suas velas, começando pelos mais velhos... O sacristão e seu auxiliar recebem as velas das mãos do Abade e as apagam. Em seguida, o Abade volta ao altar. Na liturgia hodierna, o Abade (ou o Sacerdote) normalmente está ladeado por seus assistentes, aos quais o Abade entrega as velas ofertadas. Estes são os primeiros a entregarem suas velas. Durante a oferenda das velas, o órgão pode tocar ou então pode-se entoar o canto do Ofertório, sendo que o do Comum da Dedicação das Igrejas, “Domine Deus, in simplicitate cordis mei”, é um dos mais apropriados para a ocasião. A experiência tem mostrado que esse rito causa uma grande impressão aos fiéis que nele tomam parte. Na prática de alguns mosteiros, as velas não são apagadas no momento em que são ofertadas e sim colocadas num recipiente com areia ou sobre uma tábua, ficando acesas até o final da Missa. Assim, poderemos falar realmente de uma “Missa das luzes” (“Missa das Candeias ou da Candelária”). Desde que 2 de fevereiro passou a ser o “Dia da Vida Consagrada”, esse rito da oferenda das velas adquiriu um sentido ainda maior, pois nos dá a oportunidade, por meio desse gesto, de renovar interiormente a nossa profissão. 

2.4 – A antífona mariana “Alma Redemptoris Mater”

         Conforme um antigo costume, desde o Advento até o dia 2 de fevereiro, canta-se no final das Vésperas a antífona: “Alma Redemptoris Mater” (a respeito desta antífona, ver a Carta Circular 1, Advento de 2002). Como a celebração de 2 de fevereiro é uma festa do Senhor, ela é cantada também neste dia, pela última vez. A partir de 3 de fevereiro até a Páscoa (Semana Santa), canta-se habitualmente a antífona “Ave, Regina cælorum” (cf. Diretório Litúrgico da nossa Ordem) ou uma outra antífona mariana.

3. 2 DE FEVEREIRO: DIA DA VIDA CONSAGRADA

         Desde 1997, por proposta e determinação do Papa JOÃO PAULO II († 2005), a data de 2 de fevereiro é também o “Dia da Vida Consagrada”. Com isso, o dia da festa da Apresentação do Senhor ganhou uma dimensão inteiramente nova. Independentemente da íntima relação que existe entre o mistério da festa de 2 de fevereiro e a profissão religiosa, o Papa terá escolhido esta data como “Dia dos Consagrados” talvez inspirado no costume de terem os religiosos uma importante participação na liturgia papal deste dia, entregando ao Papa um grande círio. Este dia deve ainda recordar, de modo especial aos homens e as mulheres que se decidiram pelo seguimento de Cristo na Vida Consagrada a Deus, o compromisso que assumiram e a reafirmação da própria entrega a Cristo. Ao mesmo tempo, em toda a Igreja, este dia pretende aprofundar e estimular entre os cristãos o conhecimento e a estima pela Vida Consagrada. O grande modelo dos consagrados a Deus é CRISTO apresentado no Templo, mas igualmente as pessoas cheias do Espírito Santo e testemunhas do acontecimento: o piedoso e justo SIMEÃO e a idosa profetisa ANA “que permanecia no Templo, dia e noite, servindo a Deus com jejum e oração” (Lc 2, 37). Ela é, por assim dizer, o protótipo da mulher contemplativa. Precisamente por causa disso, é aconselhável que, no dia 2 de fevereiro, se proclame não a versão abreviada do Evangelho (Lc 2, 22-32), que omite o episódio de ANA, e sim o Evangelho completo da festa (Lc 2, 22-40).

4. O CÂNTICO “NUNC DIMITTIS” NAS COMPLETAS

         Um texto da festa da Apresentação do Senhor, tirado do evangelho de São Lucas, tem, na história da Liturgia, um papel e importância especiais. Trata-se do canto de louvor conhecido como Cântico de SIMEÃO: “Agora, Senhor, podeis deixar partir” – “Nunc dimittis, Domine” (Lc 2, 29-32). Este “canto noturno da salvação que foi vista e da vida que chegou a seu termo” é um componente do ofício divino noturno já atestado por volta dos anos 380/340. Nas Completas da Liturgia das Horas Romana, o Cântico de Simeão é, por assim dizer, o ponto alto da Oração da Noite. A Regra Beneditina e, com ela, a tradição cisterciense ignoram o “Nunc dimittis” como Cântico das Completas (à exceção dos beneditinos). Contudo, os mosteiros da nossa Ordem que seguem a “Liturgia das Horas Monástica” ou a “Liturgia Horarum” Romana adotaram, desde a reforma litúrgica, esse cântico tradicional nas Completas. Uma outra possibilidade seria, por exemplo, como acontece em Hauterive: tomar o “Nunc dimittis” como Leitura breve (Capitulum) das Completas.

5. CONTEÚDO TEOLÓGICO DA FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR

Como já vimos no resumo histórico sobre a origem e o desenvolvimento da festa de 2 de fevereiro até a reforma litúrgica, seu conteúdo teológico e espiritual é rico e  variado. Tal constatação já se exprime nos diversos títulos da festa. Uma síntese excelente e concisa do conteúdo da festa é dada, sobretudo, pela introdução do celebrante no começo do rito da bênção das velas e pelo prefácio do dia. Eis o texto da alocução introdutória proposto pelo Missal Romano: “Irmãos e Irmãs, há quarenta dias celebrávamos com alegria o Natal do Senhor. E hoje chegou o dia em que Jesus foi apresentado ao Templo por Maria e José. Conformava-se assim à Lei do Antigo Testamento, mas na realidade vinha ao encontro do seu povo fiel. Impulsionados pelo Espírito Santo, o velho Simeão e a profetisa Ana foram também ao Templo. Iluminados pelo mesmo Espírito, reconheceram o seu Senhor naquela criança e o anunciaram com júbilo. Também nós, reunidos pelo Espírito Santo, vamos nos dirigir à casa de Deus, ao encontro de Cristo. Nós o encontraremos e reconheceremos na fração do pão, enquanto esperamos a sua vinda na glória.”

O tema central do Prefácio de 2 de fevereiro é o seguinte:
“...Vosso Filho eterno, hoje apresentado no Templo, é revelado pelo Espírito Santo como glória do vosso povo e luz de todas as nações. Por essa razão, também nós corremos ao encontro do Salvador; e, com os anjos e com todos os santos, proclamamos a vossa glória.”

Um comentário visual da festa da Apresentação do Senhor é oferecido pelo maravilhoso ícone festivo da Igreja Oriental, de onde surgiu esta celebração. Ele se concentra inteiramente no essencial: a Apresentação de Jesus no Templo.

Podem também nos servir de estímulo espiritual os Sermões pronunciados por nossos autores cistercienses na festa da “Purificação de Maria”, notadamente os do Bem-aventurado GUERRICO DE IGNY († 1157) e os de SÃO BERNARDO DE CLARAVAL († 1153). Como sabemos, nos Sermões 2 e 3, ele toma a Bênção e a Procissão das velas e o Ofertório como imagens da vida comunitária, atualizando-os também nesse sentido.

Com minhas saudações e bênçãos para a festa da Apresentação do Senhor e o Tempo da Quaresma que se aproxima, saúdo a todos vocês, queridos Irmãos e Irmãs.

Seu,
fr. Alberich M. Altermatt O.Cist.

Abadia de Eschenbach (Suíça), janeiro de 2008

 

 

 

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