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NONA CARTA CIRCULAR
PAX
«JESUS CRISTO É O MESMO,
Caras Irmãs!
Caros Irmãos!
O Domingo de Cristo Rei, festividade introduzida no ano de 1925 pelo Papa PIO XI
(† 1939), mostrou-nos simultaneamente, na retrospectiva do fim do calendário
litúrgico e na perspectiva do primeiro Domingo do Advento, que a essência e o
núcleo central do ano litúrgico é JESUS CRISTO, o KYRIOS. Com efeito, é sempre
DELE e do Mistério de nossa salvação que se trata. Os primeiros cristãos
expressaram isto com muita clareza ao colocarem na ábside de suas Basílicas,
acima do altar, uma imagem monumental de Cristo como soberano todo-poderoso,
sentado em seu trono (Pantocrator, Maiestas Domini). Qual o significado disto,
podemos ainda hoje perceber quando, por exemplo, visitamos uma antiga Basílica
romana: o olhar se dirige imediatamente para Cristo que domina o ambiente (veja-se
acima o Cristo Pantocrator da Basílica de São Paulo fora dos Muros, em Roma).
Mais tarde, na época do romano e do gótico, preferiu-se representar sobre os
típanos dos pórticos ocidentais das catedrais, isto é, na entrada, Cristo que
vem para julgar o mundo. Quem entra numa igreja encontra-se ao mesmo tempo com a
soberania de Cristo Senhor e pode ouvir a voz desse Rei. A interpretação da
existência cristã e da sua liturgia se revela através das palavras solenes que o
sacerdote, no começo da Vigília pascal, profere diante do fogo novo, ao preparar
o círio pascal, símbolo de Cristo ressuscitado:
«Cristo, ontem e hoje, Princípio e Fim, Alfa e Omega. A ele o tempo e a
eternidade, a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém».
O SIGNIFICADO TEOLÓGICO,
ESPIRITUAL E EXISTENCIAL
DO ANO LITÚRGICO
Considerando a grande importância que a liturgia e suas celebrações têm em nossa
vida monástica e cotidiana, gostaria agora, através desta carta circular, de
tentar explicar um pouco qual o significado teológico, espiritual e existencial
do Ano Litúrgico. O Concílio Vaticano II (1962-1965) e a reforma litúrgica dele
proveniente despertaram na consciência da Igreja uma essência e um novo sentido
do Ano Litúrgico e os fixou em sua vida. Em nossa tradição cisterciense, o Ano
Litúrgico ocupou sempre um lugar muito especial, visto que nossos primeiros
grandes Pais cistercienses como BERNARDO DE CLARAVAL († 1153), GUERRICO DE IGNY
(† 1157), ELREDO DE RIEVAULX († 1167), ISAAC DA ESTRELA (†1167/69) e todos os
que como eles são assim denominados, deixaram preciosos Sermões para os tempos
festivos e as festas do Ano Litúrgico. Podemos considerá-los como maravilhosos
comentários do Ano Litúrgico. Também os escritos das santas místicas de Helfta,
GERTRUDES MAGNA († 1302) e MECTILDES DE HACKEBORN († 1299) [não confundir com
MECTILDES DE MAGDEBURGO († 1282/94), que começou como beguina!] testemunham como
estas mulheres viveram plena e inteiramente do espírito do Ano Litúrgico e da
liturgia. Para nós, monges e monjas, encarregados por nosso Pai São BENTO (†
depois de 550) de «Nada preferir ao Ofício divino» (RB 43, 3), trata-se
de um exercício de vida procurar compreender sempre melhor e mais profundamente
o que celebramos na liturgia e no Ano Litúrgico. Nosso santo Pai cisterciense
BERNARDO DE CLARAVAL († 1153) dizia, a propósito, em um de seus sermões: «Não
convém aos monges [e monjas] nem aos sábios ignorar o que celebram ou celebrar o
que ignoram; é necessário procurar o sentido do que se celebra em honra daquele
ou daqueles santos que festejamos» (4o Sermão para a Dedicação da
Igreja, no 1).
1. O Ano Litúrgico é o próprio Jesus Cristo
O Ano Litúrgico que, em comunhão com toda a Igreja, iniciamos de novo no
primeiro Domingo do Advento, nada mais é do que a celebração do memorial e da
realização do Mistério de Cristo, cujo ponto culminante é sua morte e sua
ressurreição no Mistério Pascal (Mysterium Paschale).
A este propósito, o Concílio Vaticano II (1962-1965) ensina o seguinte, na
Consituição sobre a Liturgia – que é um dos grandes textos do Concílio: «A Santa Mãe Igreja julga seu dever celebrar, em certos dias do ano, com piedosa recordação a obra salvífica de seu divino Esposo. Em cada semana, no dia que ela chamou Domingo, comemora a Ressurreição do Senhor, celebrando-a uma vez também, na solenidade máxima da Páscoa, juntamente com sua sagrada Paixão.
No decorrer do ano, revela todo o Mistério de Cristo, desde a Encarnação
e Natividade até a Ascensão, o dia de Pentecostes e a expectação da feliz
esperança e vinda do Senhor. Relembrando assim os mistérios da Redenção,
franqueia aos fiéis as riquezas das virtudes e dos méritos de seu Senhor, de tal
sorte que, de alguma forma, os torna presentes em todo o tempo, para que eles os
penetrem e sejam repletos da graça da salvação»
(no 102).
A Igreja compreende o Ano Litúrgico como um ano circular (anni
circulus) – é, aliás, a mais antiga idéia disso que hoje designamos ano
eclesiástico – no qual, a cada ano, o acontecmento de Cristo é novamente
orientado de tal modo que o tempo natural, repleto das maravilhas de Deus, ponha
em contato as sucessivas gerações com a salvação inaugurada por Jesus. O Ano
Litúrgico é o reflexo místico-sacramental do ciclo do Senhor, sobre o qual o
próprio Jesus diz no evangelho de São João 16, 28: «Saí do Pai
e vim ao mundo. Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai»; ou ainda no
mesmo evangelho de São João 3, 13: «Ninguém subiu ao céu senão
aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu». Aliás,
estas duas passagens da Escritura têm uma significativa imporância na teologia
do Ano Litúrgico e na cristologia de BERNARDO DE CLARAVAL († 1153), nosso Pai
cisterciense. O «ciclo do Senhor», que a Igreja celebra em sua liturgia, é
também o tema do conhecido hino do Natal, de SANTO AMBRÓSIO († 397),
«Intende, qui regis Israel», que na antiga liturgia cisterciense constava
como hino das Vésperas do Natal (cf. Breviário de santo Estêvão). Assim diz a
sexta estrofe: «Procede do Pai e volta, triunfante, para para o
Pai, / vem até os infernos e volta para o trono de Deus – Egressus
eius a Patre, regressus eius ad Patrem; excursus usque ad inferos, recursus ad
sedem Dei».
O tema do Ano Litúrgico e o centro de toda a liturgia é a memória do
evento salvífico em e por JESUS CRISTO.
«Semper memoriam CHRISTI facere –
Sempre fazer memória de CRISTO»,
é missão fundamental da Igreja segundo a ordem do Senhor: «Fazei
isto em memória de mim»
(Lc 22, 19;
1Cor 11, 25). Em sua liturgia, a Igreja dá continuidade à obra salvadora de
Cristo, tornando-a presente por meio do tempo cósmico diário (Liturgia das
Horas) e do ciclo semanal e anual (calendário litúrgico). Por conseguinte, é
sempre da celebração da memória de CRISTO que se trata. O Papa PIO XII († 1958),
em sua Encíclica «Mediator
Dei»,
do ano de 1947, de onde provêm as grandes linhas orientadoras do Concílio
Vaticano II, escreveu o seguinte acerca do Ano Litúrgico:
«O Ano Litúrgico... não é uma
fria e inerte representação de atos que pertencem ao passado, nem uma simples e
nua evocação de realidades de outros tempos. Ao contrário. É o próprio Cristo,
que vive sempre na Igreja e nela prossegue o caminho de imensa misericórdia»
(Parte
III, cap. II, no 160). Daí procede a fórmula breve que constava
outrora em nosso Diretório: «Annus Liturgicus ipse CHRISTUS est – O Ano
Litúrgico é o próprio Cristo». Inclusive as festas de MARIA Mãe de Deus e dos
santos – como significou o Concílio em sua teologia (cf. Constituição sobre a
Sagrada Liturgia nn. 103 e 104) – devem estar unidas, e realmente estão, à
memória de Cristo.
2. O Ano Litúrgico como celebração memorial
e
atualização da obra salvífica de Cristo
«Memória»
(Anamnese, Memoria), uma idéia fundamental da teologia bíblica, significa, no
contexto da ação litúrgica da Igreja, não apenas uma bela recordação de tempos e
fatos passados da História de Deus com os homens, mas um fato que se atualiza.
Quando a Igreja faz memória do ato de nossa salvação, acontecido uma vez no
passado, a celebração do Mistério de Jesus Cristo se torna presente de uma
maneira misteriosa (sacramental, mística). Contudo, não se trata absolutamente
de uma repetição de acontecimentos já passados. A Igreja é bastante capaz, ao
recordar os fatos, de tornar eficazes os acontecimentos de nossa Salvação no
aqui e agora, em razão de seus atos simbólicos, de tal modo que as pessoas
reunidas para as celebrações litúrgicas recebem uma parte desses acontecimentos.
Elas se tornam, de certo modo, contemporâneas de Cristo! Que a memória da obra
da salvação realizada por Cristo se torna realmente possível, quem garante é o
Espírito Santo. Pois, como diz a Oração Eucarística no 4, ele
«continua na terra a obra de Cristo»
e
«leva à plenitude toda a sua obra».
O Papa LEÃO MAGNO († 461), que meditou profundamente sobre a presença salvífica
de Cristo na liturgia, disse esta frase admirável:
«Aquilo que era visível em nosso Salvador passou para seus mistérios»
(Sermão 74, 2; cf. Catecismo da Igreja Católica, no 1115), isto é,
nas celebrações sacramentais da Igreja. No que concerne à memória litúrgica,
podemos aplicar este belo texto de São BERNARDO, dito por ele em seu sexto
sermão da Vigília do Natal:
«É sempre novo aquilo que o coração sempre renova, e nunca envelhece aquilo que
dá frutos sem jamais murchar... Assim como [Cristo], de certa forma, ainda se
imola todos os dias, tanto quanto anunciamos sua morte, assim também sempre
parece que ele nasce de novo tanto quanto nós, pela fé, tornamos presente seu
nascimento (dum fideliter repræsentamus eius nativitatem)»
(no 6).
3. O Ano Litúrgico como celebração do inteiro mistério de Cristo
A liturgia da Igreja continua a obra da salvação através dos séculos. Todas as
festas do Ano Litúrgico têm finalmente por objeto o inteiro mistério de Cristo,
o mistério da salvação em sua totalidade, que culmina na celebração da Páscoa.
Daí procedem o equilíbrio e a unidade do Ano Litúrgico: a
Páscoa se impõe
a todo o ciclo do ano como a festividade mais importante e onipresente, na qual
nós mesmos somos incorporados. Este ponto de vista teológico foi confirmado pelo
Papa PAULO VI († 1978), no começo de seu «Motu Proprio
Mysterii Paschalis
para a aprovação do ordenamento do Ano Litúrgico» (1969), no qual afirma:
«A celebração do Mistério Pascal e seu desdobramento cotidiano, semanal e anual
constitue o essencial do culto cristão, como ensina claramente o Concílio
Vaticano II».
Daí procede também a significação existencial e constitutiva do Domingo para o
cristianismo, dia de festa primordial para os cristãos (cf. Constituição sobre a
Sagrada Liturgia, nn. 102 e 106). Dom ODO CASEL, OSB († 1948), o teólogo da
«presença mistérica», se manifestou sobre a importância da Páscoa com as
seguintes palavras de um hino:
«Esta Páscoa é o sol que ilumina todo o universo do Ano Litúrgico e faz dele um
só dia»
(Carta de 7 de novembro de 1942).
Sem cessar, o Ano Litúrgico proclama o vasto plano da salvação de Deus. Por
conseguinte, o Senhor, presente aqui e agora, orienta nosso olhar para
todas
as dimensões temporais, pois:
JESUS CRISTO É O MESMO ONTEM, HOJE E POR TODA A ETERNIDADE!
(Hb 13, 8).
Primeiramente,
o passado (memoria).
O Ano Litúrgico nos recorda os antecedentes da salvação, principiando pela
Criação, a história de nossos pais na fé, as manifestações do poder divino para
com o povo da Antiga Aliança e as promessas proféticas que tiveram sua
completude em Cristo. É exatamente isto que ouvimos agora, de novo, no Advento.
A liturgia cristã confere ao Antigo Testamento uma imensa importância – que
infelizmente nem sempre é compreendida! – porque o Antigo e o Novo Testamento
têm entre si uma indivisível e renovada unidade em Cristo. O teólogo HUGO DE SÃO
VITOR († 1141), contemporâneo de São BERNARDO, formulou nos seguintes termos
essa convicção profunda enraizada em toda a Tradição cristã:
«Toda a Escritura divina
é um só
livro, e este livro único é CRISTO, já que toda a Escritura divina fala de
CRISTO e toda a Escritura divina se cumpre em Cristo»
(De arca Noe, 2, 8; Catecismo da Igreja Católica, no 134). Mas foi
sobretudo Santo AGOSTINHO († 430) que chamou a atenção para a ligação interna
profunda dos dois Testamentos com um adágio que ficou célebre:
«O Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é desvendado
no Novo – Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet»
(Quæstiones in Heptateucum 2, 73; Catecismo da Igreja Católica, no
129).
Em seguida,
o presente (præsentia).
Cristo, que ressuscitou dos mortos e foi elevado à direita do Pai na glória dos
céus, está continuamente presente no mistério da Igreja. Através da celebração
da memória litúrgica entramos verdadeiramente em contato com ele, o Vivente, e o
encontramos simbolicamente nas celebrações sacramentais.
E finalmente,
o futuro (prophetia).
Quando a Igreja celebra suas festas, ela não olha somente para o passado nem se
fixa apenas no presente, mas tende também para o futuro e carrega, de certo
modo, a plenitude da salvação em Cristo. Esta dimensão escatológica da liturgia
é especialmente apresentada no no 8 da Constituição sobre a Sagrada
Liturgia que, entre outros, diz:
«Na liturgia terrena, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se
celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos.
Lá, Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do
tabernáculo verdadeiro; ... suspiramos pelo Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo,
até que ele, nossa vida, se manifeste, e nós apareçamos com ele na glória».
Em síntese, podemos dizer: o Ano Litúrgico é a celebração, desdobrada em
diferentes festividades, do acontecimento de Cristo em sua unicidade e em sua
totalidade, verdadeira memória do Senhor. Sua finalidade consiste em que os
fiéis, ao tomarem parte na obra da salvação, que se torna presente aqui e agora,
posam viver dela.
«Tu, ó Cristo, eu te encontro em teus mistérios»
(Apologia prophetæ David 58), ou seja, na celebração da liturgia, reconhecia
SANTO AMBRÓSIO († 397). No serviço divino da Igreja, se unem numa só realidade o
passado, o presente e o futuro! Com certeza, isto torna agora clara a liturgia
do Advento, que está começando de novo, na qual fazemos memória do
tríplice
Advento, da tríplice vinda do Senhor: sua vinda ao mundo (Encarnação), sua
volta no fim dos tempos (Parusia) e sua vinda cotidiana na celebração da
liturgia (presença misteriosa, nascimento divino nos corações). – Veja-se a
propósito minhas cartas circulares no 4, de 2004/2005, e no
8, de 2008/2009. – O sentido do Ano Litúrgico, que se repete constantemente, é
de nos introduzir sempre mais nessas três dimensões do tempo e nessa grande e
vasta visão de conjunto do mistério total de Cristo e da inteira História da
Salvação.
4. O “hoje” (hodie) da celebração litúrgica
O protagonista do Ano Litúrgico é Cristo ressuscitado e subido aos céus que
continua presente em sua Igreja. As celebrações das festas do Ano Litúrgico,
como já foi dito, são bem mais do que uma simples lembrança: elas tornam
presente, de modo místico e sacramental, o acontecimento da salvação. Assim
sendo, a Igreja pode cantar no Natal:
«Hoje Cristo nasceu»;
na Epifania:
«Hoje a Igreja se uniu ao Esposo celeste»;
e em Pentecostes:
«Hoje o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos em línguas de fogo».
Como é possível compreender isto? O nascimento de Jesus em Belém, por exemplo,
torna-se de novo presente na liturgia? Na liturgia, trata-se sempre do mistério
do Cristo total, cujo centro é o mistério pascal. Em seu conteúdo de eternidade,
o mistério pascal confere às festas e às celebrações cristãs sua força vital, a
força do Senhor crucificado e ressuscitado. A cada festa, a única realidade
pascal – e apenas ela – se torna presente no meio de nós, porém, a cada vez,
considerada sob um ângulo diferente. Assim no Natal, é Cristo glorificado que se
apresenta diante de nós, mas aqui o vemos como o recém-nascido de Belém, como
aquele que aparece na pequenez da natureza humana. No Advento, é novamente o
Senhor pascal que está presente na celebração da festa, mas agora visto e
glorificado como o Cristo esperado das nações e que voltará em sua glória no fim
dos tempos. Por conseguinte, todo o mistério da salvação está sempre aqui – eis
a magnífica razão da unidade do Ano Litúrgico. Podemos nos aproximar dele por
diversos lados – eis a razão da diversidade de festas. Visto que o homem nunca e
nem de uma só vez poderá atingir a plenitude da Páscoa, procura então uma
entrada, por assim dizer, através do Ano Litúrgico, em seus diferentes pontos de
vista, pela qual consegue chegar lá.
5. O Ano Litúrgico como reflexo da vida humana
Ao lado do conteúdo espiritual e do contexto geral do Ano Litúrgico, há também
outras conotações de tipo antropológico e pedagógico da liturgia, muito
importantes para a vida do homem e que, nos tempos de hoje, despertam uma
crescente atenção. O ser humano vive sua existência em ritmos e num desenrolar
cíclico de dias, semanas e anos. Ele precisa de ritos, de celebrações festivas e
de tradições que o ajudem a dar um sentido à vida e a assumi-la. A liturgia da
Igreja assume, no decurso do ano, as importantíssimas experiências e as
interrogações da existência humana, para delas falar e apresentar, a saber: o
nascimento e a morte, a família, a refeição, o mal e a vitória sobre ele, a
relação para com os mortos, a experiência do Espírito. Ao longo do Ano Litúrgico,
o homem tematisa as questões fundamentais de sua existência e as rela com a vida
de Jesus e dos santos. A Liturgia é, pois, um processo de aprendizado. Tal
pocesso proporciona ao homem um ensinamento concreto que lhe permita
experimentar uma vida profundamente humana e cristã. Este é, por conseguinte, o
grande valor pedagógico do Ano Litúrgico. Segundo o Concílio Vaticano II, a
Liturgia
é a
primeira e necessária fonte, da qual os fiéis haurem o verdadeiro espírito
cristão
(Constituição sobre a Liturgia, no 14). A Liturgia da Igreja quer
inserir toda a humanidade, nos seus aspectos corporal e espiritual, em contato
com Cristo e sua obra salvífica (cf. Constituição sobre a Liturgia, no
102).
6. O Ano Litúrgico como um progressivo tornar-se conforme a Cristo
À diferença da antiga compreensão do tempo como uma linha ou uma reta que segue
adiante eternamente ou como um círculo sem começo nem fim ou mesmo como uma roda
cíclica, o cristianismo compreende o tempo de Cristo, o Ano Litúrgico, como uma
espiral que, de forma circular, se eleva cada vez mais e, com o retorno
de cada ano, se encaminha para a volta de Cristo. Portanto, não existe o mesmo
ponto de partida, o mesmo eterno retorno, não, pois o traçado da espiral, ano
após ano, se eleva sempre mais. Destarte, nenhuma festa da Páscoa é igual à do
ano precedente, nenhum Advento é análogo ao do ano que passou. A cada vez, trata-se
de um nível mais elevado, de um novo caminho que conduz o tempo a sua plenitude.
Deste modo, somos de mais em mais introduzidos no mistério de Cristo e nos
tornamos
«capacitados a entender,
com todos os santos, qual a
largura, o comprimento, a altura, a profundidade e conhecer também o amor de
Cristo que ultrapassa todo conhecimento»
(Ef 18-19a).
Seremos assim «repletos da
plenitude de Deus»
(Ef 3, 19b) e
cresceremos como uma árvore cujo tronco vai se enriquecendo sempre mais com
anéis circulares, de ano para ano,
«até à plenitude de Cristo»
(Ef 4, 13). A
finalidade última do Ano Litúrgico é de nos tornar cada vez mais conformes a
Cristo: só então estaremos certos de
«participar de sua natureza e de
sua imagem »
(cf. Rm 8,
29).
Cordialmente,
fr. Alberich M. Altermatt, O.Cist. Mosteiro
de Eschenbach (Suíça), Domingo de Cristo Rei, 2009
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